Uso errado de canais e aterramentos são causas das cheias em Aracaju (SE)
Urbanista alerta que consequências das enchentes podem ser intensificadas pela ação do homem e ausência de uma ação definitiva da Prefeitura Cotidiano 25/05/2017 07h04 - Atualizado em 25/05/2017 09h08Por Fernanda Araujo, Will Rodriguez e Aline Aragão
“Todo ano é a mesma coisa, minha casa fica alagada e a gente perde tudo, de móveis até documentos. É uma situação muito horrível, um sofrimento”. Assim a diarista Matilde dos Santos define o cotidiano de quem vive no Bairro Santa Maria, Zona Sul de Aracaju, em dias de chuva. Basta uma precipitação mais intensa para os moradores da região temerem passar por situações como a de 23 de maio, em que as residências foram invadidas por uma enxurrada de água da chuva e lama.
Da última sexta até esta terça-feira, choveu 250 milímetros em Aracaju, um volume praticamente igual à média geral do mês, de acordo com o Centro de Meteorologia.
O problema é que o sistema de drenagem não comporta o aumento da quantidade de água a ser escoada e os canais transbordam, inundando ruas e avenidas, principalmente nas zonas Norte e Sul da cidade.
Para entender as causas dos alagamentos, F5 News conversou com a arquiteta Ana Libório. Segundo ela, a utilização inadequada dos canais pluviais e o excesso de asfalto são fatores que desencadeiam as cheias toda vez que as chuvas se intensificam.
“Esses canais que poderiam ser um elemento urbanístico viraram alas de esgoto. Se desde o início da nossa ocupação, tivéssemos tratado os canais como um instrumento para escoamento de água fluvial, controle das marés e utilizado como elementos urbanos paisagísticos da cidade, seria maravilhoso, como Amsterdã, por exemplo”, aponta Ana Libório.
A baixa cobertura vegetal e o excesso de pavimentação também explicam as inundações. O plano diretor em vigência – defasado há mais de uma década - prevê uma taxa de permeabilidade do terreno de 5% da área, quando o ideal seriam 25%. Dessa forma, falta solo adequado para absorção da água da chuva. “Quando existe muita área verde, a terra absorve a água e os lençóis freáticos se renovam. Como na cidade tudo impermeabiliza, acontecem as enxurradas”, diz Libório.
A arquiteta ainda cita a preocupação com a ocupação desordenada em áreas cujo processo de urbanização ainda não terminou, como é o caso da Zona de Expansão de Aracaju. Lá, segundo Ana, lagoas naturais estão sendo aterradas para a construção de novas edificações e o lençol freático já enfrenta uma contaminação oriunda dos esgotos. “Lá existe um aquífero imenso que poderia abastecer Aracaju, mas está sendo contaminado pelo esgoto. É, também, um problema sanitário”, afirma.Ana Libório acrescenta que as lagoas funcionam como drenagem natural do terreno e equilibram as águas de chuvas e as marés altas, mas também enfrentam o processo de contaminação pelo descarte irregular de resíduos. “A população joga lixo, então quando chove alaga. Se aterra, a água vai estourar em algum lugar, como está acontecendo nos conjuntos habitacionais”, observa.
A solução, na ótica da urbanista, passa – em primeiro nível - por uma ação constante de desobstrução dos canais, mas também pelo controle das ocupações perto dessas áreas e a fiscalização para coibir o despejo de dejetos dentro das valas. “Outra providência é impedir que as pessoas liguem os esgotos domésticos nos canais, uma prática em Aracaju”, completa Ana Libório.
Questionado sobre o que a prefeitura tem planejado para corrigir de forma definitiva os problemas dos alagamentos, o prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira (PCdoB), diz ser um projeto em longo prazo e responsabiliza as gestões anteriores.
“A quantidade de alagamento é proporcional ao descaso dos últimos anos a respeito da limpeza de canais e bueiros. O problema são obras que não foram feitas ou foram mal feitas, como a da Praia Formosa (na Avenida 13 de Julho)”, respondeu Edvaldo.
O prefeito não informou se este plano já está sendo elaborado ou quando deve começar sua execução. “O que tem que ser feito agora é minimizar (os transtornos)”, completou Nogueira, que governou a capital sergipana entre o final de 2005 até 2012.
A arquiteta Ana Libório chama atenção para as consequências da demora em colocar em prática ações cujo desdobramento não se limite aos efeitos imediatos das inundações. “A gente continua repetindo os erros do passado, então os problemas só tendem a se agravar”, alerta.
Fotos: Aline Aragão/F5 News

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