Travestis encontrados em semiescravidão não têm previsão de retorno
Três deles ficarão em Minas Gerais
Cotidiano 28/05/2013 20h30

Por Sílvio Oliveira

Os cinco travestis sergipanos que foram encontrados trabalhando em regime de semiescravidão em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte (MG), não têm previsão de retorno a Sergipe. Um deles é menor de idade e deverá retornar para o interior do estado. Um outro também demonstrou interesse em retornar e três deles continuarão em Belo Horizonte.

Segundo Adriana Lohanne, do Grupo Mexa-SE, Organizações Não Governamentais mineiras estão dando apoio às vítimas. O travesti que retornará a Sergipe foi encaminhado ao Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Cras). “Um grupo de Sergipe foi até a cidade e já está dando todo o apoio junto com Organizações de lá”, afirmou.

Adriana Lohanne coloca que, ao se assumir travesti ou transexual, o cidadão passa a ser marginalizado, muitas vezes ainda em fase escolar, fazendo com que deixem os estudos e apresentem baixa escolaridade.

Na quarta-feira, 05, o Grupo de Trabalho de Segurança Pública LGBT da Secretaria de Estado da Segurança Pública irá levantar a questão, além das condições de trabalho, acesso social, preconceito e conceitos dos travestis em Sergipe.

Duas das questões a serem trabalhadas no Grupo serão a baixa escolaridade e o preconceito. No geral, os travestis e transexuais terminam procurando subempregos ou indo às ruas para garantir o acesso social e um trabalho. “Você empregaria em sua casa como doméstica um travesti? Quantas empresas de Sergipe possuem em seu quadro de funcionários um travesti?, questiona Adriana.

A coordenadora do Grupo Mexa-SE, que recentemente recebeu o Prêmio da Revista S de Direitos Humanos no Rio de Janeiro, disse que as travestis ou transexuais que conquistaram bons empregos, ou foi por processo seletivo ou por concurso público. “A sociedade ainda reflete conceitos e preconceitos, deixando os travestis à margem. São sempre mal vistos”, disse.

Segundo Adriana Lohanne, nem nas políticas públicas há um preparo e o reflexo da sociedade também é visto nas escolas, nas empresas, nos órgãos públicos. “Apanhei, tive meu rosto quebrado, mas não desisti. Estudei, mas há um processo de exclusão do trabalho, da escola. Até mesmo nas políticas públicas. É só ligar para o NAT [Núcleo de Apoio ao Trabalho] que verá que não tem nenhuma identificação, nem nenhum empregado”, afirmou.

Crime e semiescravidão

Graciano Kaires Amâncio (32), conhecido como Gleicy, e Eliane Cristina de Almeida (32) mantinham os travestis numa casa vivendo em regime de semiescravidão. Eles foram presos na quinta-feira (23), quando uma denúncia informou que na casa onde eles estavam se encontravam suspeitos de ter participado de um assassinato de um sargento reformado do Corpo de Bombeiros.

Após a busca pelos suspeitos, os militares constataram que os travestis viviam em condições precárias. Eles eram obrigados a se prostituir, eram vigiados e ameaçados, além de ter de pagar R$ 50 por dia de aluguel.

Os travestis foram aliciados a trabalhar no estado de Minas Gerais por Graciano Kaires (29), com promessas de melhoria de vida, com casa, comida, trabalho e até implante de silicone.

O caso está sendo investigado pela 6ª Delegacia Seccional de Contagem (MG). O casal poderá ser indiciado por aliciamento, trabalho escravo, cárcere privado. Há uma suspeita também de envolvimento com a morte do bombeiro reformado.

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