Opinião
Que Linda oportunidade de se transformar uma cidade
Cotidiano | Por John Santana* 02/11/2020 10h02

Em tempos de guerra, de exclusão social e de direitos, buscamos amor. Pregamos a paz. Por muitos anos, nós, pessoas LGBTQIA+, fomos condicionados aos bastidores. Aos becos, vielas e esquinas. Fomos – e ainda somos – direcionados às escuras. A um lugar que ninguém vê. O esconderijo foi, por muitos anos, nossa morada. O disfarce, nossa saída para sobreviver.

Ainda somos o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo. O que contraria os dados de consumo sexual em sites na internet. O país que mais mata é, também, o que mais acessa conteúdos pornográficos ligados à nossa gente. E isso se reflete, diretamente, no que foi supracitado. Querem-nos escondidos. Sendo objetos de desejos daqueles que nos assassinam, porém que, também, nos querem. Somos, para eles, um corpo. Uma peça manipulável de seus mais internos sonhos eróticos. Mas tem que ser longe de todos. Camuflados pela hipócrita e opressora sociedade que não nos enxerga socialmente. Não nos vê. Em momento algum.

Também somos o país que menos oportuniza pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho e que nos tira o acesso à educação. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) mostram que somente 4% desse grupo têm acesso ao mercado de trabalho formal. E isso se reflete, diretamente, na presença expressiva de travestis e transexuais nas esquinas de nosso país. Tirando do corpo, do sexo, o sustento negado pelo poder público.

Outro número importante, e que precisa ser dito seguidas vezes, tem relação com a educação, como citei acima. De acordo com a Secretaria de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (ABLGBT), 76% das pessoas trans já sofreram algum tipo de exclusão no processo educacional. O mesmo levantamento aponta que, entre as raras exceções que conseguem se manter, de alguma forma, dentro do processo educacional, somente 18% concluem.

Entretanto, temos vivido o início de um novo tempo. E temos experimentado, aos poucos, a liberdade de ser quem somos.

Por isso, a necessidade de transformar aquilo que, hoje, ainda vivemos. Por isso, a importância de ter nomes que levantam a nossa bandeira, não somente em períodos eleitorais, mas a todo o tempo. Sermos vistos é necessário. Imprescindível. E essa visibilidade engloba, inclusive, o cenário político. 

Este ano, Aracaju tem a oportunidade de escolher a primeira mulher transexual para ocupar uma das 24 cadeiras da Câmara de Vereadores. Linda Brasil não é só um nome. Ela é modelo. De luta, força e enfrentamento às opressões e segregações sociais. Linda representa a nossa gente. Sobretudo por ser parte de nossa gente.

Linda tem respaldo. Tem uma trajetória de vida que corrobora com tudo que faz. Linda tem palavra. Compromisso. Linda é a resposta da nossa gente aos anos forçados à noite. Aos redutos marginalizados. Linda é a esperança de uma Aracaju, verdadeiramente, mais humana, mais acessível e que dialoga com todos, todas e todes.

Linda é a exata representação daquilo que queremos e lutamos: uma sociedade justa, inclusiva e que atue na promoção de políticas públicas para todo e qualquer cidadão, independente de classe social, gênero, raça e religião. Linda é a nossa certeza de mudança.

E que Linda oportunidade de se transformar uma cidade.

**John é jornalista, gay e militante da pauta LGBTQIA+

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