Perícia conclui que vandalismo na Prefeitura de Capela foi forjado
Cotidiano 30/03/2017 14h29 - Atualizado em 30/03/2017 20h58

Por Fernanda Araujo

O suposto vandalismo na Prefeitura de Capela (SE) registrado durante transição da gestão do ex-prefeito Ezequiel Leite para Silvany Sukita foi simulado, concluiu os peritos do Instituto de Criminalística. Os detalhes da investigação foram divulgados nesta quinta-feira (30), após uma acareação feita por um ex-funcionário da prefeitura. A responsabilidade e participação de envolvidos ainda estão sendo apuradas.

De acordo com a polícia, não houve sinais de arrombamento, depredação, vandalismo ou subtração de documentos e equipamentos nas salas do Gabinete e da Secretaria de Obras da Prefeitura, como denunciaram a atual prefeita, a servidora ativa Maria do Carmo e um funcionário contratado da gestão anterior, Alexandro Santos Dantas, que em depoimento imputou a culpa da ação criminosa à equipe da gestão anterior.

A delegada, Mariana Amorim, conta que Alexandro e Maria do Carmo foram indicados e levados pelo ex-prefeito Manoel Sukita, atual secretário de obras, para prestar depoimento na delegacia. Segundo a delegada, o funcionário foi ouvido três vezes e em todas elas apresentou contradições. Nesta quarta (29), ele decidiu se retratar e revelou que, por promessa de emprego, teria mentido a mando de Manoel Sukita e de um funcionário da atual gestão, conhecido como Conde, chefe dos vigilantes da prefeitura. 

“Na quinta-feira, 29 de dezembro, o ex-prefeito pediu que Alexandro e mais quatro homens fizessem transferência de documentos para a sede da prefeitura, de uma casa alugada utilizada pela prefeitura que fica em anexo. Essa casa continha pastas e documentos. Ele só fez pegar e levar na porta da prefeitura, outras funcionárias arrumaram e empilharam as pastas. Como haviam muitas pastas, utilizaram as duas salas”, disse a delegada.

O serviço terminou no final da tarde do mesmo dia e as chaves das salas foram entregues a servidora Maria do Carmo, que também foi ouvida, e informou que era responsável por entregar as chaves a equipe da atual gestão. “Na sexta ainda teve expediente e ao final entregaram o restante das chaves pra Maria. Ela disse que as chaves ficaram com ela e não as entregou porque ninguém apareceu para pegá-las; e que quando chegou para abrir a prefeitura na segunda-feira estava o cenário de bagunça e faltando documentos. Construíram um discurso para os dois”, afirma Moinhos.

Alexandro havia contado a polícia que, desde a última semana da gestão de Ezequiel, os funcionários e o ex-prefeito estavam vandalizando documentos da administração, colocando pastas nas salas de forma bagunçada, jogando e chutando pastas no chão. Nesta quarta, ele mudou a versão e alegou que teria sido orientado por Sukita a fazer o relato anterior antes do seu primeiro depoimento, mas negou participação da prefeita Silvany.

“Alexandro disse que estava faltando ainda computador, perguntei quais peças faltavam ele não soube dizer nem mesmo o que era cada peça. Ele alegou que teria visto que as pastas foram colocadas de forma bagunçada e inclusive teria visto o ex prefeito Ezequiel chutando, e outra funcionária ‘Gona’ teria falado que o homem estava azedo e chutando as pastas; depois disse que quem falou isso foi Aline, e depois que foi um homem. Ouvimos todos que participaram do transporte e da organização das pastas, nenhum deles confirmaram a versão. Alexandro tem histórico na família ligado a Sukita, ele afirmou que teve a promessa de que não seria exonerado e permaneceria na nova gestão, tanto que o chamaram para trabalhar como garçom na cerimônia de posse”, explica a delegada. 

Perícia

Segundo o perito André Feitosa, foi constatado que não houve entrada forçada na prefeitura, nem sinais de escalada, além disso, nenhum documento foi danificado e não houve furto. Apenas em uma sala foram encontrados fios elétricos cortados, segundo a investigação os fios teriam sido cortados com alicate, mas uma faca foi colocada no local propositalmente. Para a polícia há vestígios de manipulação na cena, uma das salas que já estava isolada pela polícia chegou a ser violada antes da chegada do perito.

As pastas que estavam jogadas contêm documentos de 2014, 1992 e 2008 onde possui contracheques de servidores do município, de obras e licitações.

Motivação

A polícia concluiu que a simulação pode ter sido motivada para justificar o decreto de situação de emergência, na qual a cidade se encontra desde o dia 3 de janeiro, que autoriza a contratação de empresas e serviços sem licitação.

A prefeita havia afirmado, em registro de ocorrência, que documentos importantes teriam sido subtraídos, o que impediria a continuação dos trabalhos e levaria o município a decretar situação de emergência. “Ela disse que naquele momento não poderia relacionar quais documentos, mas seria feito posteriormente. Até hoje não recebi a relação dos tais documentos”, lembra a delegada.

Depoimentos

A polícia ainda não concluiu o inquérito e deve ouvir nos próximos dias Manoel Sukita e outros funcionários que, segundo Alexandro, estiveram com ele, Sukita e Conde na Prefeitura no domingo, 1º de janeiro. Os suspeitos podem ser denunciados por falso testemunho e denunciação caluniosa.

A prefeita de Capela iria se pronunciar através da sua assessoria jurídica na tarde desta terça. Mas, ao invés disso, enviou nota reafirmando a situação caótica em que encontrou a prefeitura e disse que espera que a verdade dos fatos seja revelada com isenção​. A nota afirma ainda que o funcionário Conde e o secretário Sukita entregaram os cargos até o final das investigações. Sukita, por sua vez, disse que recebeu as acusações com surpresa e tristeza, e nega participação.

 

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