Número de denúncias de violência doméstica mais que dobrou em Sergipe
Cotidiano 08/03/2016 15h00

Por Will Rodrigues

Mais um dia estava terminando para a jovem A. S., na cidade de Laranjeiras (SE). Já passava das 22 horas quando seu ex-companheiro invadiu a residência onde ela estava e com uma faca tentou tirar a sua vida. Eles estão separados há dez meses, mas o companheiro não aceita a separação e na noite dessa segunda-feira (7) agrediu a mulher com que ele tem uma filha. O rapaz está preso, mas na delegacia disse que “iria matar a declarante quando fosse solto”.

O relato é verdadeiro e, infelizmente, ainda mais comum do que se imagina. Nos últimos dez anos, desde que a Lei Maria da Penha entrou em vigor, o número de denúncias de violência doméstica mais que dobrou no Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV) de Sergipe. Se por um lado, o crescimento mostra que as mulheres estão mais conscientes de que não podem aceitar a agressão caladas, revela também que ainda há um caminho longo, e por vezes árduo, no enfrentamento à violência contra o sexo, que convenhamos, já provou que não é mais tão frágil assim.

O número de denúncias à Central de Atendimento à Mulher (180) também tem apresentado crescimento. No segundo semestre de 2015, Sergipe ocupou o terceiro lugar no número de ligações, ficando atrás do Piauí e de São Paulo.

Especialistas apontam que não há como evitar, prevenir ou até coibir a violência, sem olhar também para o autor e de forma contextualizada para o problema.

“Ela acontece porque o homem aprendeu que é comum agredir a mulher quando ele se sente insatisfeito. O próprio agressor também desconhece, pois parece tão comum e normal, que passa despercebido. Daí a importância da informação sobre os diversos tipos de violência: física, moral, psicológica, sexual, patrimonial, etc”, explica a psicóloga Rosana Oliveira, da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Secretaria da Inclusão Social de Sergipe (Seidh).

 “Não tenho como proteger essa vítima sem ter um olhar interdisciplinar em relação ao autor, a imposição de uma pena de prisão, por exemplo, não garante que ele não volte a cometer novos crimes após o cumprimento da pena, ou seja, o ciclo na violência não acabaria. Ele retornaria para o mesmo ambiente familiar ou vai formar outro núcleo familiar e continuar praticando a violência”, acrescenta a professora doutora em Direito Penal pela Universidade Mackenzie, Grasielle Vieira.

Flores em vida

O número de mulheres que foram assassinadas em Sergipe cresceu 64,7% entre 2003 e 2013, segundo dados do Mapa da Violência 2015. O estado possui a 16ª maior taxa, no país, de homicídios de mulheres a cada 100 mil habitantes e a terceira maior do Nordeste.

Desde março do ano passado, a chamada Lei do Feminicídio, que transformou em crime hediondo o assassinato de mulheres decorrente de violência doméstica ou de discriminação de gênero, está em vigor. A ampliação da rede de atendimento às vítimas é a melhor alternativa para evitar o crime, mas para a secretária de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, Aparecida Gonçalves, essa ainda é um desafio, porque, na maioria das vezes, segundo ela, a vontade política é menor do que a necessidade.

“O conceito machista e patriarcal impregnado em todo nosso país faz com que isso [rede de atendimento] ainda não seja uma prioridade em muitos municípios brasileiros. Na maioria das vezes, os prefeitos não acham que é uma questão importante. São dois grandes desafios: ampliar o número de municípios com serviços especializados e, o segundo, é efetivamente conseguir mudar a cultura e o comportamento no Brasil”, aponta Aparecida.

*Com informação da Seidh

Foto principal: Bruno César - Dircom TJSE

​infográfico: Will Rodrigues/Elaborado em 08/03/2016

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