Famílias que ocupavam clínica Santa Maria permanecem na rua, em Aracaju
Cotidiano 14/09/2016 14h00 - Atualizado em 30/09/2016 12h12

Por Fernanda Araujo

Num ambiente insalubre e de vulnerabilidade, adultos, idosos, crianças, mulheres grávidas e com recém-nascidos passam necessidade. Esta é a situação das famílias que, até o dia 29 de agosto, ocupavam o prédio da antiga clínica Santa Maria, no bairro Siqueira Campos, em Aracaju (SE), e que agora estão há 16 dias na rua Espírito Santo, nas imediações do prédio.

Apesar da reclamação de alguns vizinhos e dos barracos atrapalharem o comércio do local, outros poucos solidários, inclusive os próprios comerciantes, cedem água, comida e até energia para os ocupantes. Em um ambiente de sujeira, com ratos e insetos, embaixo de chuva e ainda correndo risco de violência, essas famílias dizem não ter para onde ir. Nenhum deles recebe auxílio da Prefeitura.

Das 226 famílias que estavam cadastradas na ocupação da clínica, 86 ficaram morando na rua. Outras pessoas conseguiram se abrigar em casas de parentes e amigos. Segundo um dos coordenadores do movimento, José Bispo, os ocupantes estão há dois anos sem moradia.

“Estou pensando no que fazer, o pessoal sai à procura de trabalho, mas não encontra, hoje é mais fácil o pai de família perder a paciência e ir procurar o que o filho comer, e depois ser preso. O poder público não olha para quem vive na periferia. Infelizmente essa é a nossa história. Todos aqui votam, mas infelizmente o político só procura a pessoa quando ele tem sua casa. Os políticos são os primeiros covardes que existem em nosso país”, critica José Bispo.

Os ocupantes afirmam que ninguém da prefeitura foi até o local para conversar com as famílias. Eles aguardam uma posição antes das eleições senão podem fazer manifestações. “Garanto que se tomarmos a decisão de ir para a entrada e saída de Aracaju vai ser mais difícil tirar a gente de lá”, adianta.

Rosemeire Silva dos Santos, grávida e com mais dois filhos pequenos, um de 8 meses e outro de 3 anos, que tem problemas no coração, teme que a situação prejudique ainda mais a saúde dos filhos. “Não tenho condições de comprar remédio, até agora não consigo trabalho. A gente come o que tem, é uma vizinha ajudando a outra. Aqui é cheio de poça de água, aparece cada bicho que tenho até medo de pegar nos pés das crianças”, relata.

Dijeanderson dos Santos da Conceição, com esposa e três filhos pequenos, sendo um recém-nascido de três meses, diz que não consegue emprego. “Às vezes aparece um serviço, mas é raro. Para quem tem muita criança é perigoso ficarmos na rua. Até agora só tem promessa e ninguém vê nada. O que a gente está precisando é de casa, para viver aqui não tem como”.

Na ocupação também foram acolhidas famílias da antiga invasão do Lamarão que, segundo eles, 60 famílias deveriam ter recebido casas que foram entregues em 2012 pela prefeitura, mas a promessa não foi cumprida, como conta dona Maria José, solteira e mãe de três filhos.

“Vivia ali desde 1999. Fizemos comissão, colocamos na justiça. Fomos falar com Maria do Carmo (secretária municipal da Família e da Assistência Social - Semfas) três vezes, ela prometeu 30 casas que iam sair na Terra Dura (Santa Maria) e ela não deu, prometeu auxilio moradia e não deu. O que teve foi ‘politicagem’. O único meio foi vir pedir apoio ao pessoal daqui. Há uma semana que estou aqui e eles não vem nem pra ver se o pessoal está vivo”, lamenta.

F5 News procurou a assessoria da Semfas, que informou que foi até o local para ouvir o pleito das famílias, que cobram auxílio moradia ou casas. No entanto, devido à crise financeira e ao orçamento da prefeitura estar comprometido, a prefeitura não deve conceder o auxílio, pois o benefício já é pago a mais de 1.200 famílias. A secretaria afirma ainda que não há condições de conceder casas populares aos ocupantes. A assessoria disse que não há determinação judicial em relação a isso e que o pessoal não era de ocupações específicas. Segue nota na íntegra:

"A Secretaria Municipal da Família e da Assistência Social (Semfas) informa que, atualmente, já concede o aluguel social a mais de 1200 famílias na capital sergipana pagos com recursos próprios do município, o que acarreta um gasto de mais de 360 mil por mês e mais de 4 milhões por ano em um orçamento já comprometido. Por este motivo, este órgão comunica que não poderá conceder auxílio-moradia às famílias da clínica Santa Maria. No entanto, a Semfas esclarece que, em um primeiro momento, foi solicitado pelas famílias um local (galpão) para que fossem colocados os móveis e pertences, porém os ocupantes desistiram do pedido e solicitaram, logo depois, toldos e lonas, alternativa que foi viabilizada. Esta Secretaria esclarece ainda que não há nenhuma reunião marcada com os ocupantes do terreno privado".

Já sobre a sujeira no local, a Emsurb foi comunicada e deve mandar uma equipe no local para avaliar se o que está sendo reclamado é de responsabilidade do órgão.

[GALERIA][/GALERIA]

Mais Notícias de Cotidiano
Pedro Ramos/Especial para o F5News
28/10/2021  09h31 A vida de quem não tem um lugar digno para morar em meio à pandemia
Falta de acesso à habitação persiste e desafia efetivação da cidadania
Foto: AAN/Reprodução
11/03/2021  18h30 Prefeitura realizará testes RT-PCR em assintomáticos no Soledade
Testagem ocorre a partir das 8h, na área externa da UBS Carlos Hardmam.
Foto: Agência Brasil/Reprodução
11/03/2021  17h30 Em dois novos editais, IBGE abre inscrições para 114 vagas em Sergipe
Os contratos terão duração de até um ano, com possibilidade de prorrogação
Foto: SSP/SE/Reprodução
11/03/2021  16h10 Polícia prende suspeito de furtar prédio do antigo PAC do Siqueira
Homem foi flagrado pelas câmeras de segurança do Ciosp levando uma porta
Foto: SES
11/03/2021  16h10 Com aumento de casos, Sergipe teme falta de insumos hospitalares
Secretária Mércia Feitosa lembra necessidade de reduzir ocupação de leitos