Cabrita: Famílias voltam ao terreno e polícia é acionada
Cotidiano 20/11/2014 13h52

Por Fernanda Araujo

Parte das famílias que desocuparam o terreno no povoado Cabrita, em São Cristóvão (SE), na semana passada, retornaram após 48h do cumprimento da reintegração de posse e montaram um barraco feito de lona. Houve bastante desespero e tensão dos ocupantes, na manhã desta quinta-feira (20), quando um efetivo da Polícia Militar voltou ao local para desocupar a área, novamente. A polícia ordenou que fosse montada uma barrigada de areia nas ruas de acesso ao terreno e foi passado um trator destruindo várias plantações de frutas e verduras dos moradores, além de árvores frutíferas.

Um familiar do proprietário do terreno, que acompanhou a nova desocupação, falou a F5 News que um morador, querendo resistir, chamou outros para voltar a invasão. “É mentira que moram aqui há 20 anos, 90% deles moravam de dois anos para cá. Estavam loteando o terreno para vender, chegaram a vender até por R$ 90 mil”, disse ele que não quis se identificar.

Eldo dos Santos (ao lado), um dos moradores, estava aos prantos quando viu as plantações sendo destruídas. “Tenho três filhos e esposa. Destruíram tudo o que a gente construiu”. As famílias teriam retornado ao local com o objetivo de buscar as plantações e vendê-las na feira. “Moramos aqui há 23 anos e quatro meses. Quebraram  minhas coisas, o pouco que sobrou  botei na casa de minha irmã. A prefeitura daqui e nada é a mesma coisa. Nós não somos ladrão para fazerem isso. Tinha criação de porcos novos, mataram, bagunçaram tudo e deixaram para lá. Destruíram as plantações, eles não tem pena da gente”, reclamou outro morador Genivaldo Ramos dos Santos.

“Vinhemos para cá há 20 anos, mandaram a gente plantar, colocar filho em creche. E agora tiram nossas casas”, disse Ginalva Isaias. O cadeirante e também morador Plínio Oliveira, ontem houve reunião no Sindicato dos Bancários com outros sindicatos e a Defensoria Pública, onde foi questionado que o dono do terreno, Bosco Teles, não apresentou documentação que comprove a posse. Para Plínio, há interesses financeiros e de construtoras para a área.

“Eu vou ficar aqui até o fim, se for possível faço o que for. Muitos que viviam daqui, sábado não vão para a feira porque não têm o que levar para vender. Esse terreno não foi invadido o mês passado, aqui é uma história de vida. Boa parte foi nascida e criada e sobrevivendo daqui. No meu ponto de vista esse suposto proprietário tem que tomar vergonha na cara e provar, primeiramente, que o terreno é dele", disse, apesar de Bosco Teles ter a escritura do terreno que serviu de base para a Justiça lhe garantir a reintegração.

Revoltados alguns moradores atearam fogo em pneu, seguiram até o trator e jogaram paus e pedras, furaram pneu e quebraram o parabrisa do veículo. Uma mulher chegou a desmaiar. A confusão foi amenizada quando o deputado estadual João Daniel (PT) chegou ao local. Depois de uma conversa entre o deputado e a PM, os policiais receberam nova ordem do Comando da PM de retirar o trator e retornar à base. “Foi feita a reintegração de posse na sexta-feira, nos surpreendeu a presença do pessoal nesse local e o proprietário procurou o comando da instituição que determinou que viéssemos confirmar o cumprimento do mandado. Na hipótese de descumprimento, ou seja, crime de desobediência, que fosse tomada as providências legais. Agora, o caso vai a juízo”, explicou o capitão Fábio Alcântara. Os militares permaneceram no local apenas para esperar o concerto do trator.

Direitos

“A ação aqui é de resistência por conta da falta de responsabilidade de alguns juízes que não ver a questão do povo, os movimentos, cerca de 30 a 40, se uniram e vamos dar o apoio necessário. Estamos aguardando os movimentos se reunir e ver uma estratégia”, diz o representante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Renê Tavares.

Segundo o deputado João Daniel, é comprovada que a área da Deso, e, na última sexta-feira a Deso, a Defensoria Pública e o próprio Estado entraram com ações reivindicando o terreno, no entanto, foi julgada a penas a ação do suposto proprietário. “São poceiros que vivem aqui há 23 anos provado e comprovado. O juiz precisa respeitar que aqui tem famílias. Estão destruindo sem nenhuma indenização. Elas merecem o direito de terem a posse definitiva, terem suas casas e viver com dignidade. O presidente do partido (PT) Rogério Carvalho esteve com o governador, queremos que ele ajude a evitar o que está acontecendo aqui. No mínimo, esse despejo deveria ser feito após o julgamento de todas as ações”, afirma.

Em solidariedade aos ocupantes, integrantes do MST, MOTU e do Sem Teto realizam manifestação em lugares estratégicos fechando a ponte do conjunto João Alves, em Socorro, e a avenida Desembargador Maynard.

Fotos: Fernanda Araujo/F5 News

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