Barragem do Poxim revela área de potencial arqueológico para Sergipe
Cotidiano 26/05/2014 16h41Uma das obras mais importantes para a segurança no abastecimento de água da Grande Aracaju, a construção da barragem do Poxim, ajudou na descoberta de cinco novos sítios arqueológicos em Sergipe. O trabalho de prospecção, financiado pela Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso) e executado pela Contextos Arqueologia, revelou cerca de 3 mil peças e fragmentos históricos e pré-históricos que revelam a presença humana na área do povoado Timbó, São Cristóvão, em civilizações passadas. O estudo foi realizado entre janeiro e março de 2013 com o acompanhamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Para chegar aos resultados que demonstraram o grande potencial arqueológico para Sergipe, a pesquisa contou com etapas iniciais de levantamento e resgate emergencial, uma vez que a construção da barragem estava em estágio avançado. Cinco sítios arqueológicos foram localizados na área da barragem, sendo que um inundado (Sítio Goiabeira), dois parcialmente inundados (Sítio Timbó e Sítio Araçá) e dois acima da cota máxima de inundação (Sítio Juá e Sítio Aguiar), como aponta o relatório final gerado a partir do Programa Emergencial de Preservação do Patrimônio Arqueológico.
Entre os sítios pré-históricos estão o Araçá e o Juá. No primeiro foi identificado material lítico lascado (ferramentas de pedra), que pode ter sido utilizado por civilizações antigas como ferramenta de corte. “A matéria-prima utilizada nesse sítio é o sílex, oriundo de alguns afloramentos de calcário. A indústria analisada possui grande complexidade e traz novas interpretações para o povoamento pré-histórico sergipano”, descreve a arqueóloga da Contextos, Fernanda Libório Ribeiro Simões.
No Sítio Juá foram localizadas peças de cerâmica indígena e material lítico lascado. “Sua localização é considerada estratégica por estar no topo de uma colina cercada por cursos d’água. Trata-se de uma aldeia indígena anterior à chegada do Europeu”, revela a pesquisadora. O vestígio de civilizações pré-históricas às margens do rio Poxim mostra como o cotidiano e o desenvolvimento da humanidade sempre esteve intrínseco ao ciclo da água – recurso indispensável à vida.
“É dever da Deso colaborar no sentido de preservar o patrimônio cultural e o meio ambiente. Então, além de cumprir o papel de garantir uma maior segurança no abastecimento de água, por meio da construção da barragem do Poxim, a empresa entendeu que esses trabalhos podem ampliar os horizontes do conhecimento em Sergipe, e não só do ponto de vista da prospecção arqueológica, como também do cuidado com a fauna e a flora daquela área”, defende o diretor-presidente da Companhia, Antônio Sérgio Ferrari Vargas.
Vestígios históricos
Nos demais sítios, considerados históricos, estavam objetos do séc. XIX (faiança fina brasileira e portuguesa, vidros, grés, cerâmicas esmaltadas, ferro). No Timbó, por exemplo, havia grande quantidade de bordas de formas de pão de açúcar, utilizado nos engenhos para a fabricação do açúcar. “A função do sítio é a de um pequeno engenho, associado, possivelmente, a um engenho maior na região (Engenho Poxim). A documentação histórica indica que os engenhos da região do rio Poxim Açu utilizavam a força motriz dos rios”, explica a arqueóloga.
Cada pedacinho do chão investigado poderia revelar algum tesouro arqueológico. Por isso as sondagens de verificação subsuperfície e realização da prospecção superficial foram parte importante das intervenções em campo. O esforço minucioso permitiu a equipe de pesquisa também identificar algumas potencialidades no sítio Goiabeira, onde havia um muro de arrimo de calcário associado ao século XIX. “Trata-se de um antigo dique que acumulava água durante os regimes de cheia do rio Poxim-açu”, cita Fernanda Libório.
Nele foram coletados artefatos cerâmicos, ósseos faunísticos e materiais construtivos. “Provavelmente associado ao funcionamento do Engenho Poxim”. Já no Sítio Aguiar, o estudo sinalizou uma estrutura do início do século XX, com obras de faiança fina brasileira e portuguesa, porcelana. A interpretação realizada aponta para uma ruína de uma residência.
Detalhes da pesquisa
Foram percorridos 25,6 quilômetros de extensão durante a pesquisa, que resultou em 262 sondagens. A equipe contou com quatro arqueólogos, além de auxiliares. O objetivo foi inserir o rio Poxim-Açu dentro do quadro arqueológico do estado. “Todo estado tem enorme potencial. No Cadastro Nacional de Sítios Arqueológico [CNSA], é possível encontrar que a maioria dos sítios pesquisados em Sergipe sãos cadastrados no município de Canindé do São Francisco”, destaca Fernanda Libório.
Ela aponta que, apesar da área da barragem ser pequena, o estudo mostrou a importância de desenvolver pesquisas em todo o estado. “O que a Deso fez, além de atender a legislação, demonstrou um compromisso de correr atrás para promover um melhor estudo da área, vai beneficiar futuramente pesquisas maiores”, considera a arqueóloga.
Compromisso legal
O resgate do patrimônio arqueológico faz parte do processo de obtenção de licenças ambientais necessárias para execução da obra. Segundo o arqueólogo Ademir Ribeiro Júnior, da Superintendência de Sergipe do IPHAN, um primeiro trabalho foi contratado pela Deso, em 2011, mas o relatório gerado não foi considerado conclusivo. O segundo, executado entre janeiro e março do ano passado, confirmou a existência de indícios históricos e recebeu parecer positivo. “Havia muitos engenhos e também poderiam ter sociedades pré-históricas, então esses indícios tantos históricos como ambientais nos levaram a pedir o novo estudo”, explica.
A Deso assumiu o compromisso de avaliar o impacto ambiental e o componente do patrimônio cultural, financiando uma segunda prospecção arqueológica que foi adequadamente executada pela Contextos Arqueologia. Além do retorno de valor histórico, a descoberta estimulou a produção acadêmica, rendendo três trabalhos de conclusão de curso e a elaboração de artigos. “Estamos estudando organização da exposição das obras. Elas têm que estar disponíveis para pesquisadores e público de modo geral: o ideal é que fique acessível a todo mundo que quiser ver de perto. Então nós vamos montar o projeto de exposição na casa do IPHAN, em São Cristóvão”, informa Ademir.

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